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Dendocropus major

O meu desejo de fotografar um Dendrocopus major alimentando as suas crias levou vários anos a concretizar-se. Apesar de ser uma ave comum na zona onde vivo, a minha busca por um ninho com crias deparava-se sempre com buracos escavados parda logo a seguir serem abandonados, frente aos quais eu montava o meu esconderijo e a minha camuflagem com a esperança de que acabaria por ver uma ave a entrar ou a sair dele. Esperas plenas de esperança, mas infrutíferas.

No entanto, desta vez a sorte sorriu-me, já que encontrei um ninho no processo inicial de escavação, tal como mo demonstrava a abundância de pequenas lascas de madeira na base da árvore. Ainda por cima, o orifício ficava mais ou menos à altura da minha cabeça, o que me permitia verificar o andar dos trabalhos, e que eu fazia com todo o cuidado para não perturbar a vida das aves.

Fui calculando o tempo que ainda teria de esperar para que as crias estivessem grandes, isto, claro, se tudo corresse bem e as aves não decidissem abandonar o ninho ou este fosse predado. Quando numa das visitas me apercebi de uma jovem cabeça de pica-pau-malhado-grande assomando do orifício, a alegria de que o momento certo tinha chegado foi enorme. O local era propício, junto de um rio estreito, o Gadanha, em Monção, norte de Portugal, com abundante vegetação ripícola, que me permitia esconder-me bem, de modo a não ser visto e a não interferir negativamente na vida daqueles seres maravilhosos Este é um direito que cabe a todos os seres vivos e eu respeito-o escrupulosamente.

No dia certo, com as minhas Nikon D4 e Nikkor 600 mm f4 ED VRII e devidamente tapado por uma moita de silvas no interior da qual me escondi, pude fazer dezenas de fotos e vídeos ao longo de vários dias. Uma delas é a que aqui mostro. Durante as horas que passei camuflado observando o vai e vem dos pais atarefados no processo de alimentar a sua prole (na foto, o pai alimentando), comecei a sentir-me parte daquela família, um sentimento que sempre transporto comigo relativamente aos seres vivos com quem partilho este momento fugaz que se chama existência, e que se incrementa e adensa em casos particulares como este, quando me é permitido passar muito tempo com os seres que fotografo.

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