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Esta belíssima ave é um papa-figos macho – a fêmea é amarelo-esverdeada, com cores mais esbatidas – que eu necessitava fotografar para um guia de campo em que trabalho há já alguns anos. Na região onde habito é bastante escassa, tendo o seu número vindo a decrescer ao longo do anos, coisa comum nas aves que nos rodeiam. Podemos, aqui e ali, ouvir  o seu canto melodioso e aflautado vindo das copas das árvores e uma ou outra vez poderemos vê-la voar de árvore em árvore no interior de cuja copa se oculta da vista de quem tenta apreciar toda a sua enorme beleza. Passa cá a primavera e o verão e depois migra para outras paragens, neste caso africanas, mais quentes do que os rígidos invernos peninsulares. Trata-se de uma ave muito tímida e desconfiada que raramente poisa em local descoberto. Fotografá-la é um grande desafio para qualquer fotógrafo de natureza.

Tentei a minha sorte no Parque Natural do Douro Internacional, onde é bastante mais abundante. A minha intenção era a de localizar um ninho e esconder-me na vizinhança deste para surpreender este arisco pássaro. Encontrei um, uma espécie de funil suspenso numa bifurcação situada na extremidade de um ramo, uma construção feita com tiras de casca e outros materiais que enlaça firmemente de modo a resistir a uma eventual ventania, mas nunca vi nenhuma ave cerca dele, talvez por se tratar de um ninho abandonado. Acabei por tentar a sorte escondendo-me junto de umas cerejeiras onde, de vez em quando, o via pousar para se alimentar com cerejas. Para tal, escondi-me sob uma pequena rede de camuflagem junto do tronco de outra cerejeira mas as oportunidade foram poucas e sempre perturbadas por folhas ou ramos que ocultavam parcialmente a ave. A perspectiva, de baixo para cima, também não me agradava e acabei por me decidir a instalar-me num talude sobranceiro à cerejeira de modo a ficar ao nível da copa e poder assim captar imagens em plano horizontal. Após cerca de 3 horas de espera os resultados não foram os desejados, tendo apenas obtido fotos de uma fêmea parcialmente tapada, nos escassos segundo que se manteve na árvore. Quando ao fim da tarde abandonei o meu esconderijo, o meu estado de ânimo não era o melhor, com dores nas costas e nas pernas devido ao tempo em que permaneci praticamente imóvel sob a camuflagem. Fui para casa recuperar forças e não voltei ao local no dia seguinte, ocupando-me com outros projectos fotográficos, neste caso com um ninho de abutre-do-Egipto – que fotografei e filmei a grande distância recorrendo à minha Nikkor 600 mm f4, a que adicionei um teleconversor de 1.7x, aproveitando o factor crop de uma Nikon D7100 – e imagens de andorinha-das-rochas, de que necessitava também para o guia de campo que referi no início. No entanto, o papa-figos continuava na minha mente que, pouco a pouco, se animava e recuperava dos diversos falhanços anteriores. Assim, voltei ao talude, desta vez com duas redes de camuflagem de modo a tapar-me completamente e não permitir a esta desconfiada ave qualquer possibilidade de me detectar caso ela viesse à cerejeira que me convinha, pois havia outras carregadas de frutos logo ali ao lado. Instalei-me o mais confortavelmente que pude, apoiando-me nos tronco ramificado desde baixo de um salgueiro que cresceu no talude, pendurei as redes de camuflagem de modo a ficar tapado por trás e pela frente e esperei, esperançado, que o pássaro viesse. Passa um hora, passam duas e eu lá me ia entretendo captando imagens de um rouxinol que alimentava os filhos já saídos do ninho e que não parava de piar em meu redor, alarmado pela presença daquele vulto estranho que antes não fazia parte da sua paisagem; poisa um estorninho preto, alguns papa-amoras, um bico-grossudo com a cabeça tapada por um ramo (que desespero o meu que tanto queria fotografar esta preciosidade, ela própria outro desafio) mas do papa-figos nada. Comecei a pensar que não valia e pena, que iria ser outra tarde falhada, que mais valia estar a fazer outras coisas, que o pássaro mudou a sua preferência para outra árvore, enfim, ideias desanimadoras que sempre surgem quando o tempo passa, as costas doem, e os cotovelos apoiados no salgueiro já não podem mais e já estão a ficar esfolados e o bicho não aparece. Olho para o relógio e dou a mim próprio mais quinze minutos e se ele não aparecer vou-me embora derrotado. Ajeito melhor as redes, reposiciono o corpo para resistir ao tempo autoconcedido, verifico uma vez mais os parâmetros da câmara, aponto a teleobjectiva para o local onde desejava que a ave pousasse se viesse e tivesse essa imensa fortuna de que ela escolhesse a ramo que mais me convinha no meio de todas as centenas de ramos que a árvore tem. E, de repente, vinda do nada, uma fita amarela entra no meu estreito campo de visão e transforma-se numa bela aves amarela e preta pousada no tal ramo. Suspendo a respiração e a minha Nikon D4 absorve a primeira imagem captada pela Nikkor 200-500 mm,  e depois outra e mais outra e outra ainda e finalmente a última. A ave ouvia os disparos da câmara – em modo silencioso – e olhava em redor procurando a origem do som (se disparasse em modo normal ou rajada ela teria saído disparada após o primeiro click), olhou para baixo, olhou para cima e finalmente na minha direcção, assustando-se com a lente frontal da teleobjectiva, uma espécie de olho gigante, e desapareceu num segundo, deixando para trás um fotógrafo feliz e agradecido.

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